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sexta-feira, 29 de março de 2013

O amor está no ar

Alvaro Acioli

Restam em nosso universo poucas sociedades igualitárias, mágicas e atemporais. Grupamentos humanos sem hierarquia e onde tudo, no céu ou na terra, pode ser  completamente  explicado.

Sociedades primitivas nas quais o sobrenatural ocupa um vasto espaço idealizado e o natural um território bem  pequeno. Sociedades onde os problemas das gerações contemporâneas são semelhantes, como ocorreu  com  seus antepassados.

Já  em  nossa sociedade globalizada o futuro pessoal e social  é vivido como mera possibilidade. Uma sucessão de espetáculos domina o meio informado, indicando falsos  modelos e bens, para seguir ou desejar.  O viver tornou-se uma mera representação de papeis ;a  grande verdade de hoje pode ser a farsa de amanhã.

Nesse começo do século XXI  o desemprego é o presente amargo da revolução tecnológica. Trabalhar, para ter casa e comida, virou a maior fonte de angustia  social.

Apenas a ilusão é uma mercadoria abundante, na sociedade do espetáculo.  E a pseudo liberdade do ilusionismo dificulta, crescentemente,  o encontro de objetivos pessoais,  forçando as pessoas a  delegarem  suas decisões mais íntimas.

Não é de estranhar que esteja ocorrendo ( em todo o mundo ) uma  multiplicação assustadora do número de seitas; trata-se da busca mais fanática ou da fuga mais radical, que a história humana  registra.

Muitas dessas seitas  controlam verdadeiros impérios econômicos, que vendem de  foguetes supersônicos  a simples  eletrodomésticos.

No  universo mágico, que domina o mercado milionário da ilusão, dois princípios são fundamentais: teorias simples e soluções práticas.

Uma atenção sedutora  orienta o processo de atração dos novos adeptos. E um contacto  estimulante e direto neutraliza os sentimentos de abandono, isolamento, anonimato e indefinição.

Segue-e um cuidadoso trabalho de doutrinação, para reordenar  ideias e redefinir  valores e conceitos. O  eleito “descobre”, em pouco tempo,   a  superioridade da  nova  ordem  e  o  sentido que tanto buscava  para a sua vida.

Já incorporado,  o novo membro é submetido a uma disciplina férrea, para  maior  entrega pessoal  e  completa  subordinação. Só então o convertido deixa o mundo da confusão e ingressa na senda tranquilizadora da certeza e da coerência. Salvando-se, finalmente,  das trevas e do purgatório.

Mas um outro caminho salvador, para os desesperados humanos,  embora menos garantido, já tinha sido  apontado por Fernando Pessoa, através de Alberto Caeiro: “O essencial é saber ver, saber ver sem  estar a pensar ... nem pensar  quando se vê,  nem ver quando se pensa...mas isso exige um estudo profundo, um aprendizado  de desaprender...”

E   há muito poucos horas  no desfile purificador das Escolas de Samba,  os arautos da  Viradouro hipnotizaram a massa  com uma professia  redentora, que os  julgadores dos quesitos lamentavelmente não entenderam : “o amor está no  ar, vai  conquistar  seu  coração !”