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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ressocialização e Liberdade

Alvaro Acioli
Uma nova experiência humana deve edificar-se sobre a aceitação de sua condição finita e de uma existência com limites impostos. Não partir dessas condicionais é perpetuar o descaminho e perder, definitivamente, a chance de construir individualidades. Para escapar da tragédia da finitude é indispensável assumi-la. Essa é a a única atitude que permite ao homem redescobrir o amor pela vida.
Uma nova educação deve aumentar a consciência do homem ensinando as responsabilidades que acompanham os seus direitos. E isso começa pela advertência de que qualquer existência está vinculada a todas as outras ; que estamos condenados à co-existência. Nesse sentido a auto-afirmação começa pelo respeito à dignidade e a importância do semelhante. Sem isso é impossível evitar que o desencontro humano se perpetue.
Ante os extraordinários avanços tecnológicos, a instrução deve continuar sendo uma tarefa predominante do Estado. Mas a educação, indispensável para o aproveitamento adequado da instrução, deve prosseguir como o compromisso principal da familia. Principalmente a iniciação dos usos e costumes, das normas e comportamento, das hierarquias e valores admitidos ou condenados, pela sociedade. Além do atendimento às necessidades físicas, deve continuar cabendo à família dar amor e a proteção indispensável para o desenvolvimento. Por isso é impossível melhorar o humano sem proteger à família.
Mas o comportamento perdeu a espontaneidade, ao longo do tempo. Os gestos mais simples reproduzem padrões, conceitos ou preconceitos, condicionados. O homem já encontra, ao nascer, os papeis sociais institucionalizados, o que torna difícil viver os infinitos modelos recomendados. O impacto provocado pela teleinformática colocou em situação ainda mais crítica a realização desses papeis. O comportamento assumido, em função da experiência, foi há muito substituído pelo comportamento recomendado. Antes a experiência revelava nossas motivações íntimas, facilitando a mútua compreensão. Os modismos forçam hoje que se aja em obediência ao que é sugerido ou imposto. Obedecer as regras, sem discuti-las, e amedrontar-se ante as verdades consagradas, são paradigmas importantes, do comportamento dominante.
Estamos escravizados pelas máquinas que criamos para dominar os animais. Antes do grande salto as mudanças era lentas ; mantinham-se por muitas gerações. Hoje, conceitos e valores, discutíveis, geram critérios cada vez mais precários. Do bom ao mal, do moral ao imoral, do certo ao errado, tudo se tornou questionável, ou descartável. O viver complicou-se extraordinariamente e todos precisam de uma reorientação existencial. Agora o natural, o simples, precisa ser redescoberto. Cabe indagar: pode o homem criar hoje uma história própria, diante da relação indefinida com seu mundo? Pode ele defender-se da ação do tempo, que a todo momento ameaça afundá-lo no anonimato ou na banalidade? Como ele pode prevenir-se e proteger-se do indiferentismo, da dispersão, da infidelidade a sí mesmo?
A ampliação da liberdade humana surge como um importante caminho para a reconstrução. Volta a pergunta: e como conseguir esse intento? Penso que três pontos são da maior importância, na redefinição da socialização humana : 1. Reconhecer a motivação como o fundamento de todo o aprendizado; 2. Aceitar que a frustração é um elemento básico na variabilidade do comportamento; 3. Entender que educar é contribuir para outras individualidades e não a chance de reescrever a própria história.
A educação tem de ser repensada mais em termos de trajetória que de objetivos; como eu vou e não para onde eu vou. Os problemas da vida precisam ser ensinados como ocorrências possíveis, que podem contribuir para o crescimento pessoal, se enfrentados adequadamente. Já que não existe grupo social sem regras, deve-se desenvolver mais tolerância à frustração. A permissividade excessiva dificulta uma relação social satisfatória.
Um dia mestre Malraux advertiu: "A liberdade a que me considera ter direito é a tua. A liberdade de fazer o que te agrada. A liberdade não é uma permuta - é a liberdade".
Somente livre, de fato, o homem pode encontrar o seu destino, realizar sua tarefa, plasmar sua forma, a da comunidade e a do mundo.
E essa liberdade só é conquistada quando o homem descobre que ela é fundamental.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Caminhos da reconstrução

Alvaro Acioli

O que vai definir a face da sociedade futura será a capacidade humana de superar a finitude da existência, aprendendo a realizar-se dentro dos limites que a vida social impõe. Desconhecendo essas condicionais o homem perpetuará seus conflitos e perderá, definitivamente, a chance de aperçoar sua humanização. Para vencer a tragédia de sua finitude, o homem tem que decidir-se a assumí-la definitivamente. Somente assim ele reencontrará as condições capazes de restabelecer seu amor pela vida.Uma socialização nova deve vincular direitos e responsabilidades humanas. Para tanto urge consagrar de que todas as existências são interdependentes. Estamos condenados à coexistência. Qualquer afirmação particular começa pelo respeito à dignidade do semelhante. Fora desses princípios é praticamente impossível evitar a perpetuação do desencontro humano.Diante dos extraordinários avanços tecnológicos, a instrução deve continuar sendo a principal função do Estado. Mas a educação, indispensável para o aproveitamento adequado da instrução, permanece como a grande missão da família. Principalmente a iniciação dos usos e costumes, das normas e comportamentos, das hierarquias e dos valores. Além dos cuidados físicos cabe ainda à família dar amor e proteção. A educação tem de ser repensada mais em termos de trajetória que de objetivos; como eu vou e não para onde eu vou. Os problemas da vida precisam ser ensinados como ocorrências possíveis,que podem contribuir para o crescimento pessoal, se abordados adequadamente.Constata-se que a atuação humana perdeu a expontaneidade. Até os gestos mais simples reproduzem padrões condicionados, sejam conceitos ou preconceitos. O homem já encontra, ao nascer, compromissos definidos, sendo-lhe crescentemente dificil viver os infinitos padrões e caminhos recomendados. E o impacto causado pela tecnologia da informação relativizou a realização de todos os papeis sociais. O comportamento assumido, em função da experiência, foi substituído pela representação recomendada. Antes a vivência revelava nossas motivações íntimas, o que facilitava a compreensão. Hoje os modismos forçam uma obediência automática. Cumprir as regras, sem discutí-las, e amedrontar-se ante as verdades consagradas, são realidades comportamentais, quase absolutas.Acabamos escravizados pelas máquinas que criamos para dominar os animais. Antes do grande salto as mudanças era lentas ; mantinham-se por muitas gerações. Hoje, conceitos e valores, discutíveis, geram critérios cada vez mais precários. Do bom ao mal, do moral ao imoral, do certo ao errado, tudo se tornou questionável. O viver complicou-se extraordinariamente e todos precisam agora de reorientar suas existências. O natural, o simples, precisa ser redescoberto. Cabe indagar: o homem terá ainda tempo para transformar-se, apesar da relação indefinida entre ele e seu mundo? Consegirá esse mesmo homem defender-se da ação do tempo, que ameaça afundá-lo no anonimato e na banalidade? Como ele pode prevenir-se e proteger-se do indiferentismo, da dispersão, da infidelidade a sí mesmo?A ampliação da liberdade humana surje como um caminho importante para a própria reconstrução. E como se pode atingir esse objetivo ? Penso que treis pontos são da maior importânica, na redefinição da socialização humana : 1. Consagrar a motivação como o fundamento do aprendizado; 2. Aceitar que a frustração é um elemento básico na variabilidade do comportamento; 3. Entender que educar é contribuir para outras individualidades e não uma chance para o educador reescrever a sua própria história.Um dia mestre Malraux advertiu: "A liberdade a que me considera ter direito é a tua. A liberdade de fazer o que te agrada. A liberdade não é uma permuta - é a liberdade". Somente livre, de fato, o homem pode encontrar o seu destino, realizar sua tarefa, plasmar sua forma, a da comunidade e a do mundo. E essa liberdade só é conquistada quando o homem descobre que ela é fundamental.



quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Os supostos loucos

A ressocialização dos pacientes tem sido apresentada como a principal tarefa
de todos os programas do atendimento psiquiátrico e da saúde mental.
Estariam realmente os novos tratamentos permitindo a reintegração dos insanos
ou nos é que estamos nos relacionando melhor com o mundo deles?
Os próprios remédios, que eram usados exclusivamente para os ditos doentes mentais
estão sendo largamente consumidos, por uma grande maioria
dos considerados normais pela sociedade.

O que se constata, na realidade prática, é que terapeutas e pacientes estão convivendo melhor nos ambientes de tratamento. Eles estão muito mais à vontade juntos, seja em hospitais, ambulatórios ou dispensários. Os novos psicofármacos, controlando de forma incisiva os sintomas da alienação, possibilitaram esse clima de proximidade. Ensejaram, também, a criação de pequenas comunidades, onde tratadores e tratados podem viver um momento social comum.

Não obstante, esse convívio ainda está circunscrito a pequenos grupos onde, respeitados como pessoas humanas, os pacientes encontram uma compreensão que não é a mesma existente na grande coletividade. Permanecem muito sólidas as barreiras criadas pelo preconceito que cerca a doença mental, longe ainda de ser considerada uma doença comum. Embora tenha feito grandes e extraordinárias descobertas, o homem aumentou consideravelmente os seus problemas e também seu medo. E o de enloquecer talvez seja o maior dos medos, em amplas parcelas de nossa sociedade.

A era da demonologia não se encerrou ; os demônios é que se modernizaram, disfarçando-se com novas roupagens e atuando de uma forma mais competente. No inconsciente coletivo o dito louco ainda é um possuído pelas forças do mal e, porisso mesmo, um incapacitado para uma vida criadora e participativa. Há resistências, bem profundas, dificultando o trabalho das campanhas de esclarecimento sobre as chamadas doenças mentais. O homem-psicótico de hoje, principalmente após o advento da moderna psicofarmacologia, mostra um padrão comportamental muito menos contrastante com os homens de seu grupo.

É quase irrelevante a excentricidade do seu comportamento, quando o comparamos com o que se observa em seu meio. Seus neologismos jã não são tão originais ou muito diferentes dos adotados por amplas camadas de nossa população . Diga-se o mesmo das alterações do pensamento, das flutuações do afeto e da vontade, distúrbios outrora privativos dos quadros psiquiátricos. Além disso alucinações, delírios e estados confusionais estão sendo hoje apresentados, em maior número, por “cidadãos-normais”, usuários ou dependentes de drogas.

A classificação do anormal, pela mera identificação de sinais e sintomas, sem que se realize um exame, em múltiplas dimensões, além de precária, vai se tornando – a cada passo – mais enganadora. Os radicalismos doutrinários devem dar lugar a posições menos pretenciosas e mais críticas. Somente assim os supostos loucos vão se tornar pessoas comuns e ter o direito de dar um recado humano, contribuindo com o melhor de que são capazes.
Alvaro Acioli

http://araciolireunidos.blogspot.com/2008/04/os-supostos-loucos.html